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SAÚDE

Medicamentos para animais de estimação – Nunca automedique seu pet

Mariana Benitez Fini

Mariana Benitez Fini
26/09/14

Dra. Mariana Benitez fala sobre medicamentos para animais de estimação e dos perigos de automedicar seu pet


Você, com certeza, já ouviu um monte sobre a automedicação. Tipo, “Não tome medicamentos sem o conhecimento do seu médico”. Duvido muito que você consulte o médico na hora de comprar uma Aspirina, mas mesmo assim, entende o recado…”com a saúde não se brinca” e todas aquelas outras coisas que as avós costumam dizer.

Maravilha. Mas e na hora de cuidar do seu pet? Você acha que não precisa consultar o veterinário na hora de dar uma Aspirininha? Que um Engov antes e outro depois fazem milagres? Então esse artigo é pra você!

Eu selecionei os melhores casos de “automedicação-fail que eu já encontrei e que, espero, vão fazer qualquer um pensar duas vezes, três vezes (…) quinhentas e vinte e duas vezes, antes de resolver testar a receita-milenar-pra-dor-no-fio-da-veia-do-osso- passada-de-geração-em-geração-na-sua-família.

Medicamentos para animaisXarope? Não, obrigado…



Porque que a automedicação, que no caso dos animais não pode ser realmente chamada “automedicação” (a menos que seu pet coma cartelas de comprimidos – o cachorro de uma amiga minha faz isso…), é tão mais perigosa nos animais do que nas pessoas?

Começa pelo fato de que organismos diferentes reagem de formas diferentes a uma mesma substância. Se você toma um Tylenol pra febre é uma coisa, mas dê um Tylenol pro seu gato pra ver o que acontece (to brincando! Não faça isso! NÃO FAÇA ISSO!!! Sério!).

Outra coisa que acontece são as velhas simpatias, chazinhos da vovó e receitas de família (não vá dizer que na sua família não tem! Toda família tem uma doideira dessas. Minha mãe, por exemplo, tem o esquema de usar álcool etílico com cravo pra aliviar dor e coceira de picada de formiga. Não sei se realmente funciona, mas o cheirinho é bom…). Essas “receitinhas caseiras” podem causar efeitos desastrosos no seu amiguinho peludo, por isso, muito cuidado na hora de dar aquele chazinho de alho e cebola quando o gatinho fica resfriado! Cebola é extremamente tóxica pra cães e gatos (principalmente).

Você ainda acha que receita da vovó vai curar seu bichinho da dor de barriga? Dê uma olhada nesse causo, então:

Eu estava no meu estágio, linda alegre e pimpona, quando a Dra. Lucilândia me chamou: “você não vai acreditar nisso!” eu: “o que?” ela: “um cara acabou de ligar aqui, falando que o cachorrinho filhote ta muito mal. Ele estava doente e o maluco deu óleo de dendê pro coitado, que agora ta convulsionando, fraco e mole” eu: “óleo de dendê?! Pra que?!” ela: “não faço ideia…” (pausa – cada uma ficou matutando qual diabos seria o sentido do óleo de dendê pro cachorro.) eu: “e como ele deu óleo de dendê pro cachorro? Enfiou na boca?” ela: “não, menina. Foi metade intramuscular e metade intravenoso!” Moral da historia, não conhecemos o cachorro e muito menos o gênio farmacêutico em questão. O animalzinho morreu antes de chegar na clinica.

Ficou convencido que receita caseira maluca não serve pra cachorro e gato?

Outra coisa que a gente vê muito por aqui (eu não, porque não trabalho nessa área, mas a @Sarah_Seidel me conta direto) é que os carroceiros têm o costume de entupir a bunda do cavalo de fumo quando coitado está com cólica, acreditando que o fumo faz com que o animal defeque. Crendice das grandes! Realmente, depois de enfiar o fumo sai uma coisa meio verde e nojenta das “partes” do cavalo…coisa essa que não é nada além do próprio fumo que o zé ruela enfiou fió abaixo no coitado do bicho. Por isso, muito cuidado na hora de confiar nessas “receitas tiro-e-queda” (porque a queda não costuma ser boa….).

Mais uma coisa que acontece com freqüência é a receita médica do Dr.Google. Justamente por isso que eu me recuso a colocar nome de medicamentos para animais, tratamento e indicações terapêuticas nos artigos. Já recebi vários e-mails perguntando qual o melhor vermífugo, qual a melhor vacina, que remédio eu uso quando acontece isso ou aquilo. Nem perco meu tempo respondendo. Por quê? Porque cada caso é um caso! O remédio que serviu pro relato de caso que apareceu na revista, pode não ser o mesmo remédio que vai servir pro caso que você está atendendo. Simples assim. Cada animal tem uma dose calculada de acordo com o seu peso e suas características particulares (hepatopatia, cardiopatia, geriátrico, pediátrico, poodle, pastor alemão, persa….), por isso NUNCA use a mesma receita que você encontrou no Google no seu animal. Quer saber porque? Lê aqui:

Mais uma vez, eu fofa e descabelada no estágio, quando minha “empregadora” chega P da vida. “você não acredita no que aconteceu!” – disse ela – “uma mulher ligou aqui, dizendo que o cachorro tá com leishmaniose, e que ela achou na internet que o tratamento era feito com Glucantime. Comprou uma caixa, começou a aplicar no cachorro e agora ele ta tão inchado que os olhos estão quase saltando pra fora!” Esse foi mais um paciente que a gente não viu. Morreu logo em seguida, antes de chegar para a consulta.

E mais uma e, talvez o principal problema que a gente encontra na hora da automedicação em pets: a ideia infeliz de achar que remédio humano serve pra animal. Criatura! Por mais que você considere seu pet um membro da família, que “só falta falar”, mais humano que aquele seu primo porco que peida dentro do saco de pão, ele ainda é um animal.

E se remédio humano servisse pra animal, não teríamos razão para ter companhias farmacêuticas especializadas em medicamentos para animais, certo? Algumas vezes não podemos fugir e temos que receitar um fármaco humano, mas, sempre que possível, o animal deve tomar remédios de uso veterinário. Mais uma historinha pra ilustrar:

4 horas da madruga, eu dormindo e sonhando..far far away…quando o telefone toca. Era o meu namorado, dizendo que a cachorrinha da irmã dele estava com a boca sangrando muito, tinha sangue pela casa toda e eles estavam desesperados (eu conseguia ouvir a minha cunhada chorando no fundo…). Cara, eu tava no 4º perído, pra mim podia ser qualquer coisa!. O único livro que eu tinha comigo era a bíblia da patologia, mandei um “guenta ai que eu te ligo” e sai correndo pra procurar todas as causas de hemorragia em cães. Como todo calouro miserável, eu já tava pensando nas doenças mais malucas – tipos neoplasias, carcinomas, morte em cinco minutos… – liguei de volta e perguntei “hm…vocês deram alguma coisa diferente pra Tiquinha comer?” ele: “peraí, xô ver aqui…” 30 segundos depois: “minha irmã disse que ela tava com um pouco de febre ontem, então deu um comprimidinho de AS infantil….” até hoje eu lembro do tanto que eu xinguei ele, dizendo que AS é venenoso até pra criança….quanto mais pra um pinscher! No dia seguinte a gente descobriu, a cachorra tinha quebrado um dente, mas como tinha tomado ácido acetilsalisílico – que “fluidifica o sangue” e retarda a coagulação – o machucado do dente não conseguia cicatrizar, e saiu sangue pra todo lado.

Como você pode ver, remédio é coisa séria e só pode ser indicado por um profissional (mais um motivo pelo qual eu não posso nem sonhar em indicar um remédio nos artigos…). Com a saúde dos animais a gente também não deve brincar…automedicação, mesmo que seja dar um xarope pra tosse, é um perigo!

Nunca jamais em hipótese alguma dê medicamentos para animais de estimação sem orientação veterinária. Pode ser desastroso!


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